12/01/2012




“Mesmo que eu parta”

Ontem a Morte veio, sentou-se ao meu lado,
Num tosco banco de jardim da antiga praça;
E foi logo me dizendo, em tom debochado:
“ - Eu vim aqui pra te buscar, velha carcaça!...”

“ - Não vou... Não posso abandonar minhas poesias...”
Lhe respondi, entre assustado e bem nervoso.
De pronto retrucou, num tom então raivoso:
“ - Também não posso regressar de mãos vazias!”

Pedi-lhe: “ - Afasta do meu corpo esta gadanha...
Nem tenho pressa alguma de partir contigo;
Pouco me importa se não cumpres a façanha,

E se ao final, mesmo que eu parta, monstro hediondo,
Os muitos versos que restarem, no jazigo,
Garanto-lhe: minha alma há de seguir compondo!"