29/01/2016








"Relógio de parede II"



 "- Relógio de parede, oh, máquina infernal,
Ruidosa velharia que me rouba a calma...
Tão fria e brutalmente impinges à minh’alma
Teu badalar rangente e sobrenatural.

 De sobressalto, quantas noites me acordaste,
Na mais flagrante afronta ao meu sono, já leve!..."
Que lamentável sina, a minha, que se atreve
A me roubar a paz tão desprezível traste?

Eu hei de me vingar quando raiar o dia!...
Emudecer pra sempre a voz do impertinente:
Sua tiquetaqueante e estúrdia sinfonia...

E assim, peça por peça eu fui jogando fora...
E toda a casa, toda noite, é tão silente,
Que é exatamente o que me rouba o sono agora!...

27/01/2016






“Sem receio”




Hei de compor sonetos pela vida inteira,
Mesmo antevendo para todos triste fim:
Sendo lançados para arder numa fogueira,
Por detratores que praguejam contra mim.

Ouço-os dizendo: - "É um charlatão que os escreveu;
Um falastrão vestido em trajes de poeta,
Que por engano desse dom se convenceu,
Mas era apenas um coitado de alma inquieta!"

Hei de compor os meus sonetos sem receio
De que algum dia alguém os jogue na lixeira;
De que, por vandalismo, alguém os rasgue ao meio...

De que algum dia, alguém que os leia atentamente,
Descubra em meio aos versos meus, que a vida inteira,
Gastei meu tempo todo à toa, inutilmente!...