13/03/2009

“Presente”


Quisera ter um coração gelado...
Um “iceberg” dentro do meu peito;
Não esse tolo, que vive abrasado,
Que ama demais e nem pulsa direito.

Que presta ao amor extremado zelo,
Se esquecendo até das funções vitais;
Se fosse como eu queria, de gelo,
Cuidaria do meu sangue, bem mais.

Não ficaria alojando emoções...
Ao resfriar o calor das paixões,
Espantaria um amor que chegasse...

Deus, no entanto, quis dar-me de presente,
Bem assim como o que eu tenho, tão quente,
Um que eternamente se apaixonasse!...
“Zero vírgula zero”

Falas de mim com desprezo, tenho notado;
Que se eu morresse não seria grande perda...
À luz da matemática, um zero à esquerda...
Olha, atentamente... e vais te ver do meu lado!

Representamos a falência, a derrocada,
A burra sociedade que a si mesmo anula,
Dois dígitos iguais de uma quantia nula;
Dois tolos figurantes de um valor... que é: nada!

Por me depreciares, de maneira acintosa,
Dar-te uma resposta, nestes meus versos quero,
Haja vista que os manejo bem melhor que a prosa.

Tantas evidências não deixam que eu me cale;
Vejo a nós dois, como zero vírgula zero:
Tu és o da direita, que também nada vale!
“Fragmentos”

Ah!... meus pobres versos!... andam perdidos
No dorso da brisa, vagando a esmo!...
Vão sendo aos sons da noite confundidos;
Ninguém sabe por que... nem sei eu mesmo!...

Quem foi que os pôs assim, brisa, confessa!...
Nessa viagem sem destino, confusa?...
Quem foi que atrapalhou sutil remessa:
Versos encantados pra minha musa?...

Mil versos farei, se tu me ajudares,
Também para ti, de agradecimento,
Se os versos pra ela, acaso encontrares...

Ao tocares neles... peço-te calma...
Pois cada um deles é um frágil fragmento,
Da imensa paixão por ela em minh’alma!...
Que rei sou eu?...



Mas, afinal, que rei sou eu, tão pobre, “duro”?...
Minha coroa não tem ouro, é feita em lata;
Meu castelo não passa de um pardieiro escuro;
O meu cetro é um bastão de madeira barata.

Meu trono é uma cadeira velha, toda torta,
Que mal suporta meu peso, no dia-a-dia...
Veio um surto de gripe, e toda a corte é morta...
...Nem a rainha se livrou da epidemia!...

Meu reino é meu quintal, pequeno e mal cuidado;
(Umas flores, lá inda viçam, teimosamente,
“Protegidas” por uma cerca em mau estado!...)

As razões desse absurdo, confesso, não sei...
Mas prometo aqui: se acontecer novamente...
Farei um esforço sobre-humano, e acordarei!
“Cenário”

Por tantas vezes, lhe abraçar, pensei,
Nesses meus sonhos, tantos, delirantes...
Neles, nem sabes, o quanto eu beijei,
Esses seus lábios rubros, provocantes...

Éramos devassos enlouquecidos,
Em meio a uma permuta de prazeres;
Sussurros, e suspiros e gemidos,
Embalavam ali nossos dois seres.

Por nossas libidos sendo arrastados
Pela noite afora, de tão cansados,
Nem víamos o dia amanhecer...

...Me lembro acordando, tão solitário,
Todas as manhãs, no triste cenário,
Do meu quarto vazio sem você!...

19/01/2009

“Realeza”

Eu tinha um riso que me divertia,
Um riso bem largo, escancarado...
Muitas das vezes, nem motivo havia,
Pra estar ali, no meu rosto estampado.

Causava alarde esse meu riso aberto;
Já me chamavam de “Rei da Alegria”...
Mas nem eu mesmo, nunca soube ao certo,
Por que, de que, daquele jeito eu ria.

E lhes confesso que hoje ainda não sei,
De que lugar tal riso tenha vindo,
Que de homem simples transformou-me em rei...

O riso se foi, mas não a realeza,
Pois todos que me viam sempre rindo,
Me chamam agora: “Rei da Tristeza”!...