13/03/2009

“O que importa”

De que matéria tu foste talhada,
Pra ter assim essa imagem divina?...
O rosto, esse corpo que me alucina?...
A um só tempo és mulher, menina, fada!...

No corpo, as formas da Vênus, perfeita,
Na face, a candura de anjos tu tens;
Quem és, criatura, de onde tu vens,
De que elemento ideal foste feita?...

De qual plaga do Universo surgiste?...
Essa tua beleza, de onde trouxeste;
Teu lume candente, de que consiste?...
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Deixemos de lado as indagações:
O que importa de fato é que vieste,
Pra delírio de olhos e corações!...
“Exaltação”
Indescritível... flor, tenra bonina,
De um jardim sobrenatural, surgida;
És falena insinuante, “ballerina”,
À luz das ribaltas de minha vida!...

Irresistível... mulher, atraente,
Em vão, por ti, suspira a natureza,
Ao ver-se pífia, vulgar, descontente,
Ante à lucina de rara beleza!

Inatingível... estrela, deslumbrante,
Que da janela avisto fulgurante,
Em todas as noites no céu em gala...

Que me extasia tanto, me entontece,
Que tão próxima, às vezes, me parece,
Mas não consigo jamais alcançá-la!...
“Um olhar assim”

Olhes pra mim,
Mas olhes sempre com jeito,
Que o teu olhar, parece, foi feito,
Pra me matar.

Olhes pra mim,
Mas sempre olhes com cuidado,
Que eu nunca tinha pensado,
Que havia um olhar assim.

Olhes pra mim,
Mas olhes bem devagar,
Que é pra eu me acostumar,
À luz desse teu olhar.

Olhas pra mim,
Com esse teu olhar tão doce,
Como se, de fato, eu fosse,
Capaz de suportar.

Olhas pra mim,
E toda vez que olhas, vejo,
Aceso, sempre um desejo,
Louco, de incendiar.

Pobre de mim,
Que sempre indefeso sou
Nas vezes em que eu estou,
Na mira do teu olhar.

...Sorte, pra mim,
Que vejo um olhar assim...

Já nem me importa o que ocorra,
Mesmo que o vendo, eu morra...
Morrerei feliz, enfim!
“Presente”


Quisera ter um coração gelado...
Um “iceberg” dentro do meu peito;
Não esse tolo, que vive abrasado,
Que ama demais e nem pulsa direito.

Que presta ao amor extremado zelo,
Se esquecendo até das funções vitais;
Se fosse como eu queria, de gelo,
Cuidaria do meu sangue, bem mais.

Não ficaria alojando emoções...
Ao resfriar o calor das paixões,
Espantaria um amor que chegasse...

Deus, no entanto, quis dar-me de presente,
Bem assim como o que eu tenho, tão quente,
Um que eternamente se apaixonasse!...
“Zero vírgula zero”

Falas de mim com desprezo, tenho notado;
Que se eu morresse não seria grande perda...
À luz da matemática, um zero à esquerda...
Olha, atentamente... e vais te ver do meu lado!

Representamos a falência, a derrocada,
A burra sociedade que a si mesmo anula,
Dois dígitos iguais de uma quantia nula;
Dois tolos figurantes de um valor... que é: nada!

Por me depreciares, de maneira acintosa,
Dar-te uma resposta, nestes meus versos quero,
Haja vista que os manejo bem melhor que a prosa.

Tantas evidências não deixam que eu me cale;
Vejo a nós dois, como zero vírgula zero:
Tu és o da direita, que também nada vale!
“Fragmentos”

Ah!... meus pobres versos!... andam perdidos
No dorso da brisa, vagando a esmo!...
Vão sendo aos sons da noite confundidos;
Ninguém sabe por que... nem sei eu mesmo!...

Quem foi que os pôs assim, brisa, confessa!...
Nessa viagem sem destino, confusa?...
Quem foi que atrapalhou sutil remessa:
Versos encantados pra minha musa?...

Mil versos farei, se tu me ajudares,
Também para ti, de agradecimento,
Se os versos pra ela, acaso encontrares...

Ao tocares neles... peço-te calma...
Pois cada um deles é um frágil fragmento,
Da imensa paixão por ela em minh’alma!...