16/01/2011

"Virgem morta"


Oh! make her a grave where the sun-beams rest,
When they promise a glorious morrow!
They’ll shine o’er sleep, like a smile from the West,
From her own lov’d island of sorrow.


(TH. MOORE)



Lá bem na extrema da floresta virgem,
Onde na praia em flor o mar suspira...
Lá onde geme a brisa do crepúsculo
E mais poesia o arrebol transpira...

Nas horas em que a tarde moribunda
As nuvens roxas desmaiando corta,
No leito mole da molhada areia
Deitem o corpo da beleza morta.

Irmã chorosa a suspirar desfolhe
No seu dormir da laranjeira as flores,
Vistam-na de cetim, e o véu de noiva
Lhe desdobrem da face nos palores.

Vagueie em torno, de saudosas virgens
Errando à noite, a lamentosa turma...
E, entre cânticos de amor e de saudade,
Junto às ondas do mar a virgem durma.

Às brisas da saudade soluçantes
Aí, em tarde misteriosa e bela,
Entregarei as cordas do alaúde
E irei meus sonhos prantear por ela!

Quero eu mesmo de rosa o leito encher-lhe
E de amorosos prantos perfumá-la...
E a essência dos cânticos divinos
No túmulo da virgem derramá-la.

Que importa que ela durma descorada
E velasse o palor a cor do pejo?
Quero a delícia que o amor sonhava
Nos lábios dela pressentir num beijo.

Desbotada coroa do poeta!
Foi ela mesma quem prendeu-te flores!
Ungiu-as no sacrário de seu peito
Inda virgem do alento dos amores!...

Na minha fronte riu de ti, passando,
Dos sepulcros o vento peregrino...
Irei eu mesmo desfolhar-te agora
Da fronte dela no palor divino!...

E contudo eu sonhava! e pressuroso
Da esperança o licor sorvi sedento!
Ai! que tudo passou!... só resta agora
O sorriso de um anjo macilento!

Ó minha amante, minha doce virgem,
Eu não te profanei, tu dormes pura:
No sono do mistério, qual na vida,
Podes sonhar ainda na ventura.

Bem cedo, ao menos, eu serei contigo
— Na dor do coração a morte leio...
Poderei amanhã, talvez, meus lábios
Da irmã dos anjos encostar no seio...

E tu, vida que amei! pelos teus vales
Com ela sonharei eternamente...
Nas noites junto ao mar e no silêncio,
Que das notas enchi da lira ardente!...

Dorme ali minha paz, minha esperança,
Minha sina de amor morreu com ela,
E o gênio do poeta, lira eólia
Que tremia ao alento da donzela!

Qu'esperanças, meu Deus! E o mundo agora
Se inunda em tanto sol no céu da tarde!
Acorda, coração!... Mas no meu peito
Lábio de morte murmurou: — É tarde!

É tarde! e quando o peito estremecia
Sentir-me abandonado e moribundo!?...
É tarde! é tarde! ó ilusões da vida,
Morreu com ela da esperança o mundo!...

No leito virginal de minha noiva
Quero, nas sombras do verão da vida,
Prantear os meus únicos amores,
Das minhas noites a visão perdida...

Quero ali, ao luar, sentir passando
Por alta noite a viração marinha,
E ouvir, bem junto às flores do sepulcro,
Os sonhos de su'alma inocentinha.

E quando a mágoa devorar meu peito...
E quando eu morra de esperar por ela...
Deixai que eu durma ali e que descanse,
Na morte ao menos, sobre o seio dela!
Álvares de Azevedo
(Poema agrupado posteriormente e publicado em Lira dos Vinte Anos)

28/12/2010

VIRGENS MORTAS (Grafia original)

Quando uma virgem morre, uma estrella apparece,
Nova, no velho engaste azul do firmamento:
E a alma da que morreu de momento em momento,
Na luz da que nasceu palpita e resplandece.

Ó vós, que, no silencio e no recolhimento
Do campo, conversaes a sós quando anoitece,
Cuidado! - o que dizeis, como um rumor de prece,
Vae sussurrar no céo, levado pelo vento...

Namorados, que andaes com a bocca transbordando
De beijos, perturbando o campo sossegado
E o casto coração das flores inflammando,

- Piedade! ellas veem tudo entre as moitas escuras...
Piedade! esse impudor offende o olhar gelado
Das que viveram sós, das que morreram puras!

Olavo Bilac
(1865-1918)

23/11/2010

"LIBIDO"


Que sensação prazerosa, a libido,
Se apoderando de nossa alma inteira;
Como devassa, intrusa alcoviteira,
Falando de pecado ao nosso ouvido.

E, em toda vez, despudorada, acende,
Em nossos olhos, da lascívia, a chama...
E nos desnuda, e nos atira à cama
Que um súcubo zeloso logo estende.

Sob acordes de mágicos violinos,
Nos faz sonhar mil sonhos libertinos;
E o que era adormecido, então se arvora.

Quando se vai, ela nos deixa ansiosos;
Nos acompanha, em passos silenciosos,
Latente... pra irromper a qualquer hora!

19/06/2010

“Envelhecer”

Eu tinha apenas vinte anos e já temia
Chegar aos trinta... Parecia um pesadelo!
Frequentemente, nos espelhos eu me via,
A procurar por fios brancos no cabelo.

Cheguei aos trinta, com pesar, a contragosto;
Com ironia: "- Comemore!...", alguém me disse...
(Frente ao espelho, a procurar rugas no rosto,
Não falaria, se me visse, tal tolice!)

O tempo passa tão depressa!... eu lamentava...
E foi assim que, lamentando, eu fiz quarenta;
Aborrecido, nos espelhos, não me olhava.

Hoje me convenço, (o contrário até que provem!),
E digo rindo, sempre, quando a idade aumenta:
Envelhecer é bem melhor que morrer jovem!

11/06/2010

“Questão”

Sou fingidor exímio, (sou poeta!)...
E afirmo: Não existe um mais fingido!
Nem creio que jamais tenha existido
Quem finja assim, de forma tão discreta.

Além disso, pra espanto de vocês,
Confesso, muito tenho me cuidado:
Temendo ver meu vício revelado,
Chego a fingir que finjo alguma vez!

Agora mesmo, neste exato instante,
(E pode parecer-lhes bem chocante!...),
Eu posso estar fingindo, e nem notaram...

Sei que aborreço, e peço o meu perdão,
Mas, a mim mesmo, intriga esta questão:
Fingir!... Nasci sabendo, ou me ensinaram?...

08/06/2010

"O Frade e a Freira"
BENJAMIN SILVA (1897-1954)

Na atitude piedosa de quem reza
e como que num hábito embuçado,
pôs naquele recanto a natureza
a figura de um frade recurvado.

E sob um negro manto de tristeza
vê-se uma freira tímida a seu lado.
que vive ali rezando, com certeza,
uma oração de amor e de pecado...

Diz a lenda - uma lenda que espalharam -
que aqui, dentre os antigos habitantes,
houve um frade e uma freira que se amaram. . .

Mas que Deus os perdoou lá do infinito,
e eternizou o amor dos dois amantes
nessas duas montanhas de granito!