07/10/2011

                                                     "De Papel e Tinta" (Soneto nº 104)

Poeta: um homem de papel e tinta
Que se desfaz enfim no próprio pranto.
Tão frágil para amar pois ama tanto:
Não há um que não ame e que não sinta.

Poeta: um homem com mais de trinta
Que vive triste e só no próprio canto.
Porém, existirá somente enquanto
A dor do amor em si não for extinta.

Poeta: um homem que só tem ao redor
Lembranças da mulher que nunca tem
Por mais que a ame com amor maior.

Poeta: um homem que tem o mal e o bem
De conseguir amar mais e melhor
E nunca ser amado por ninguém.

                                                                                              Eden Santos Oliveira

26/08/2011

"O suicida"

Coitado, matou-se!... Disseram: -Por amor!...
Por uma tal Rosa... jamais correspondido.
Amor que virou tormento, virou dor,
Amor que, por ninguém, havia já sentido.

Tentou explicar tantas vezes tal paixão
Pra todos, pra si mesmo... faltou-lhe argumento!...
E viver sem Rosa, já não tinha razão;
Faltavam palavras... sobrava sentimento!...

Diante da incompreensão de uma cidade inteira,
Viver foi se tornando mais e mais penoso,
Que foi buscar na morte, a porta derradeira.

Houve quem dissesse que ele foi um covarde;
No entanto, os seus amigos, que foi corajoso...
Os inimigos disseram: -Morreu?... foi tarde!...

17/08/2011

"Um rosto de mulher"

Todas as noites, lá no céu, reparem bem,
Há um rosto de mulher, todo feito de estrelas;
Confesso-lhes, não posso adormecer sem vê-las,
Se o faço, nos meus sonhos, na certa elas vêm.

E, uma a uma, vão se ajuntando bem depressa,
Até formar aquele rosto tão bonito;
Brilhante, esplendoroso, como o do infinito,
Ante meus olhos, toda noite, sem que eu peça.

Ah, me desculpem, quase esqueço de dizer...
Lembrei-me agora!... após deixá-los tão curiosos,
De quem é o rosto, sei que vão querer saber.

Sinto... não posso revelar o nome dela!...
Mas lhes garanto, que entre os astros luminosos,
Nunca se viu no céu constelação mais bela!

14/08/2011




Não sei quem escreveu, mas quem assina é o TREMA ...
É uma tremenda aula de criatividade e bom humor, por sinal, com acentuada inteligência. A conseqüência (sem trema) não poderia ser outra: uma agradável leitura.


DESPEDIDA DO TREMA

Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema. Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüentas anos.
Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!...
O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio... A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. Os dois pontos disseram que eu sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé.
Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C cagão que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico do I. Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?... A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K e o W, "Kkk" pra cá, "www" pra lá.
Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou "tremendo" de medo. Tudo bem, vou-me embora da língua portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!...
Nós nos veremos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história.


Adeus,

Trema.


Fonte: http://arteemerson.blogspot.com

"Nesta cidade"

Eu vejo nós dois, nos meus sonhos, em Paris,
Juntinhos, às margens do Sena, nos beijando;
E toda a cidade, assombrada, nos olhando,
Como fôssemos dela, o casal mais feliz.

E numa outra vez, aos beijos, na Grécia antiga,
Bem defronte ao Partenon, nos vejo na praça...
E vamos causando tanta inveja a quem passa,
Que, jamais ter visto amor igual, há quem diga.

No Egito, junto às pirâmides milenares,
Desviando delas, dos turistas, seus olhares,
Quantas vezes, nesses sonhos, nos pude ver!...

Só não posso ver-nos, jamais, nesta cidade...
Quem sabe me dês um dia a felicidade,
De, nesses meus sonhos, aqui me aparecer!...

22/07/2011



"Esforços inúteis"



Por que cultivo esse ardor tão intenso,
Se tu nem me olhas, se não me crês?...
Se o mundo de paixões a que pertenço
Jamais te abrigou, nem uma só vez?...

Tocar as tuas mãos... ah! como eu queria;
Beijar os teus lábios num terno instante...
Fartar-me dessa luz que se irradia
Do teu olhar sereno e fascinante.

Meio aos esforços inúteis, perdido,
Tão alto que possa, sem ser ouvido,
Muitas vezes, em desespero, grito...

E sinto que, aos poucos, nessa aventura,
Num misto de sonhos e de loucura,
Eu vou, de Sísifo, recriando o mito!