12/03/2012

"CACOS" (Soneto nº 64)


Enquanto estava inteiro dei-me todo
A quem me fez estátua destroçada.
Agora em mil pedaços dou-lhe cada
E todo caco cheia deste lodo.

Eu tento refazer-me de algum modo
Por emendar em mim o que me agrada.
Do coração partido foi levada
A parte sã por ventos onde eu rodo.

Pois é tão fraca a cola com que grudo
O pouco que restou de mim na escada.
Sim, todo pedacinho tão miúdo...

A estátua está de novo descolada
Porque dei um amor maior que tudo
A alguém com um amor menor que nada!


EDEN SANTOS OLIVEIRA

12/01/2012




“Mesmo que eu parta”

Ontem a Morte veio, sentou-se ao meu lado,
Num tosco banco de jardim da antiga praça;
E foi logo me dizendo, em tom debochado:
“ - Eu vim aqui pra te buscar, velha carcaça!...”

“ - Não vou... Não posso abandonar minhas poesias...”
Lhe respondi, entre assustado e bem nervoso.
De pronto retrucou, num tom então raivoso:
“ - Também não posso regressar de mãos vazias!”

Pedi-lhe: “ - Afasta do meu corpo esta gadanha...
Nem tenho pressa alguma de partir contigo;
Pouco me importa se não cumpres a façanha,

E se ao final, mesmo que eu parta, monstro hediondo,
Os muitos versos que restarem, no jazigo,
Garanto-lhe: minha alma há de seguir compondo!"

19/11/2011









“Cupido”



Cupido é mesmo um anjo sem juízo
Que, de arco em punho, por aí se esgueira,
Cravando flechas sem um prévio aviso,
Como se o amor fosse uma brincadeira.

Por uma delas, hoje, ao fim do dia,
Meu coração foi atingido em cheio...
É de causar inveja a pontaria;
Sinto-a cravada fundo, bem no meio!...

Cupido é sempre um anjo inconsequente...
Devia ser um pouco mais sensato;
Seria, ao certo, um pouco mais prudente,

Se o coração da nossa doce amada,
Tivesse também, no momento exato,
Por ele, outra flecha igual encravada!




31/10/2011

" Declaração de Amor "

Não te recordas mais? - Dois anos são passados
após aquela noite clara, e aquele mar
que espraiando distante, ouvir nos fez, calados,
os segredos de amor que estava a murmurar.

Nós dois - Quanta saudade!... Os braços enlaçados
fitávamos sonhando, o azul, cheio de luar,
- e os grãozinhos, de luz, no céu, pulverizados,
numa estrada que além... fugia ao nosso olhar...

- Que mais?... Tudo era belo - e no íntimo casando
a beleza do espaço à beleza da terra
não pude me conter, e os olhos teus fitando

disse: " Que mar feliz!... Que infinito esplendor!...
Que pode haver maior que o céu que tudo encerra
mais belo que esta noite?... E tu disseste:"
o amor!
"


( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. I - 1a edição 1965 )

07/10/2011

  "Leitora Amada" (Soneto nº 90)



Se tu, leitora amada, ainda existes,
Lê este meu poema inteiro agora.
É curto: sua leitura não demora.
Lerás a minha longa dor se insistes.

Que tu, leitora amada, me conquistes
Ao lê-los e chorar comigo... Chora!
Porém, se não quiseres, vai embora
E deixa-me só nestes versos tristes!

Leitora amada, além de ti, secreta,
Apenas tenho um grande amor maldito
Com a maldita dor que me acarreta.

Se amar tu não me puderes, não me irrito:
Se tu não amas este mau poeta,
Ama um poema que já tenha escrito.

                                                     "De Papel e Tinta" (Soneto nº 104)

Poeta: um homem de papel e tinta
Que se desfaz enfim no próprio pranto.
Tão frágil para amar pois ama tanto:
Não há um que não ame e que não sinta.

Poeta: um homem com mais de trinta
Que vive triste e só no próprio canto.
Porém, existirá somente enquanto
A dor do amor em si não for extinta.

Poeta: um homem que só tem ao redor
Lembranças da mulher que nunca tem
Por mais que a ame com amor maior.

Poeta: um homem que tem o mal e o bem
De conseguir amar mais e melhor
E nunca ser amado por ninguém.

                                                                                              Eden Santos Oliveira