27/01/2016






“Sem receio”




Hei de compor sonetos pela vida inteira,
Mesmo antevendo para todos triste fim:
Sendo lançados para arder numa fogueira,
Por detratores que praguejam contra mim.

Ouço-os dizendo: - "É um charlatão que os escreveu;
Um falastrão vestido em trajes de poeta,
Que por engano desse dom se convenceu,
Mas era apenas um coitado de alma inquieta!"

Hei de compor os meus sonetos sem receio
De que algum dia alguém os jogue na lixeira;
De que, por vandalismo, alguém os rasgue ao meio...

De que algum dia, alguém que os leia atentamente,
Descubra em meio aos versos meus, que a vida inteira,
Gastei meu tempo todo à toa, inutilmente!...





02/01/2016



Em Campina Grande, na Paraíba, em 1955, um grupo de boêmios fazia Serenata
numa madrugada do mês de junho, quando chegou a polícia e apreendeu o
violão. Decepcionado, o grupo recorreu aos serviços do advogado Ronaldo
Cunha Lima, então recentemente saído da faculdade e que também
apreciava uma boa seresta.

 Ele peticionou em Juízo, para que fosse liberado o violão. Esse petitório
ficou conhecido como "Habeas Pinho" e enfeita as paredes de escritórios de
muitos advogados e bares em praias do Nordeste. Mais tarde, Ronaldo Cunha
 Lima foi eleito deputado estadual, prefeito de Campina Grande (cassado
pelo
Golpe), senador da República, governador do Estado e deputado federal.

 Vejamos a famosa petição:

 


"HABEAS PINHO"
 





 Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca

O instrumento do crime que se arrola
neste processo de contravenção
não é faca, revólver nem pistola,
é simplesmente, doutor, um violão.

Um violão, doutor, que na verdade
Não matou nem feriu um cidadão.
Feriu, sim, a sensibilidade
de quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
instrumento de amor e de saudade.
O crime a ele nunca se mistura.
Inexiste entre eles afinidade.


O violão é próprio dos cantores,
dos menestréis de alma enternecida
que cantam as mágoas que povoam a vida
e sufocam suas próprias dores.

O violão é música e é canção,
é sentimento vida e alegria,
é pureza é néctar que extasia,
é adorno espiritual do coração.

Seu viver como o nosso é transitório,
mas seu destino, não, se perpetua.
Ele nasceu para cantar na rua
e não para ser arquivo de cartório.

Mande soltá-lo pelo amor da noite
que se sente vazia em suas horas,
p'ra que volte a sentir o terno açoite
de suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão, Dr. Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz,
cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, e afinal, será pecado,
será delito de tão vis horrores,
perambular na rua um desgraçado
derramando na rua as suas dores?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
na certeza do seu acolhimento.
Juntada desta aos autos nós pedimos
e pedimos também DEFERIMENTO.

O juiz Arthur Moura deu sua sentença no mesmo tom:

Para que eu não carregue
remorso no coração,
determino que se entregue
ao seu dono o violão.



Ronaldo Cunha Lima