06/02/2016





“Relógio de Parede V”




O meu relógio de parede atrasa;
Já não tem mais a precisão de outrora...
É um traste velho numa velha casa,
Que passa o tempo, e cada vez piora...

Já quis vendê-lo, mas ninguém o quer,
E me aconselham a jogá-lo fora...
E comprar outro: " - Pode ser qualquer,
Que pelo menos marque certa a hora..."

Mas ninguém sabe o quanto eu gosto dele;
Nem a quantia que paguei por ele...
Pra consertar, correndo vou levá-lo!

 Quem sabe é apenas trocar uma peça?...
Mas, na oficina, terminou a pressa:
“ - Não se aproveita, sequer, seu badalo!..."

05/02/2016





“Relógio de Parede IV”



Esse relógio de parede, ah, quem diria,
Se transformou no mais terrível pesadelo...
Por onde eu vou, em cada esquina eu penso vê-lo;
(Eu sempre achei que algum estranho me seguia!...)

Todas as noites, nos meus sonhos, me aparece,
Escancarando o mostrador, mostrando a hora;
Como a lembrar-me que há um girar que me devora,
Como se risse do meu corpo que envelhece...

Que torturante aparição... Quanta ironia
Há nos ponteiros desse torpe mecanismo,
Que a todo instante, do meu tempo me anuncia...

Oh, Deus, apague esse fantasma em minha mente...
Eu sei tão bem a que distância estou do abismo,
Que não preciso desse aviso tão frequente!...




“Relógio de Parede III”




Ah, como eu lembro, meu relógio de parede,
Ele era um velho suíço, de alta precisão...
Seu suave badalar lembrava uma canção,
Que embalava meu sono, na cama ou na rede.

Por ele recusei altíssimas ofertas;
Nada mais justo, pois tratava-o como amigo...
Lembrava-me de tudo, sempre às horas certas;
Dava a impressão de que importava-se comigo...

O tempo foi passando, e assim como um vigia,
Num gesto nobre de total cumplicidade,
Acompanhava meus passos, no dia-a-dia....

Em certa noite, nos tornamos dois defuntos;
Mas demos nesse adeus, selando essa amizade,
Os últimos suspiro e badalada... juntos!