20/04/2007

“Um poeta”


Há sempre um homem a sós, nesta rua...
Já deves tê-lo, talvez, encontrado;
Que toda noite fica olhando a lua,
E ao se banhar de luar, sonha acordado.

Que tem um jeito estranho, um ar distante,
E não é louco, embora assim pareça...
Leva a crer, nada tem mais importante,
Que uma porção de sonhos na cabeça.

Que conversa com as estrelas e as flores,
Que explana sutilmente as maravilhas,
E faz a escuridão se encher de cores.

Faz do encanto a ocupação predileta,
Tem versos por filhos, rimas por filhas,
Não é louco nem vagabundo, é um poeta!
“O pranto e o sorriso”


Certa vez, num encontro inusitado,
O pranto e o sorriso, de repente,
Atônitos, viram-se frente a frente;
Pela primeira vez tinham se olhado.

O pranto, então, sentiu que era preciso
Revelar ali seu desagrado
Pela existência do rival, odiado...
-“Nós dois, (respondeu-lhe então o sorriso),

A lira do destino, ao léu, tangemos,
Compondo a sinfonia dos extremos;
A nos ouvir a humanidade dança...

Jamais nos sentamos à mesma mesa;
Como imitássemos a Natureza,
És a Tempestade... Eu sou a Bonança!”
“O fantasma”


Batem à porta... Quem será que está batendo?...
A estas horas, quando a rua está deserta,
Já todos dormem... quem será que me desperta,
Do sonho bom que no momento estava tendo?...

Algum mendigo, um pobre errante, vagabundo,
Talvez, faminto, tenha vindo aqui bater;
Um bêbado, algum louco, também pode ser;
Há tantos perdidos, à noite, pelo mundo!...

Fortes, cada vez mais, vão ficando as batidas;
Cada vez mais alto elas podem ser ouvidas,
E aumentam meu medo de abrir aquela porta...

Minha alma, quando o faço, nesse instante pasma,
Ao ver, claramente, que lá fora há o fantasma,
De uma felicidade há muito tempo morta!...
“A luz”


Adeus, minha ilusão, eu vou deixá-la,
E não tente me seguir, eu lhe imploro;
Repare nos meus olhos que ainda choro,
Perdido em meio à solidão da sala.

Esse meu pranto oculte, sem demora,
Junte as tristezas num canto qualquer;
Dos velhos sonhos, faça o que quiser...
Que um novo alento me sorri, lá fora.

Passar na rua, numa tarde incerta,
Pela fresta da janela entreaberta,
Eu vi, sem querer, nos olhos de alguém,

A minha sonhada felicidade...
Vou sair, procurar pela cidade,
A luz que me falta, e esses olhos têm!
“Síndrome do pânico”


Tremores, mãos geladas... de repente,
Acometidos somos, de pavor;
Uma sensação de morte iminente,
Nos enclausura em mórbido torpor.

Palpitações, taquicardia intensa,
Nesses momentos de extrema aflição,
Tornam inda mais forte a nossa crença
De que estagnar-se os batimentos vão.

Gélidos suores dos poros vão fluindo,
Vertigens, dispnéia, dores cruciais...
“-É o fim de nossa vida aos poucos, vindo!”...

A causa, nos explica a medicina:
Por entre os interstícios neuronais,
Há falta de uma tal “serotonina”!...
“Pantomimas”


Como um pintor eu fosse, renomado,
Capaz de a própria vida, numa tela,
Fielmente retratar com sua aquarela,
Eu me senti, por vezes, muito ousado.

De cores vivas, de brilhos, de flores,
Os meus quadros, repletos sempre estavam,
Que, ao vê-los, logo, todos se encantavam;
Causava inveja a todos os pintores.

“Que mãos tão hábeis, quanta sutileza!...
De revelar tão bem tanta beleza,
Só mesmo um gênio pode ser capaz!...”

Mas, só eu mesmo, o autor das obras-primas,
Conseguia entrever as pantomimas,
Das tintas, escondidas por detrás!...