23/05/2009

“Eu e o meu espelho”
A contemplar o próprio rosto, desolado,
Às vezes fico horas frente ao meu espelho,
Hábito a que há bom tempo me aconselho,
Buscando nele um fugir desesperado.

Alguém me disse, certa vez, cheio de espanto;
"- Que estranho confidente, o próprio espelho!... Ora,
Pode ele compreender se você chora,
O mal que dentro se exaspera e aflige tanto?..."

Não sei como explicar um tal procedimento...
Pode, certamente, a outros olhos parecer,
Ilógico, insensato, e sem discernimento!

Que ele ao refletir meu rosto, com frieza,
Acata paciente as mágoas do meu ser,
Posso dizer aqui, no entanto, com certeza!
“Flores roubadas”
Saí por noites, em gélidas madrugadas,
Por trilhas ínvias e ruas, longas estradas;
De olores divinais, das mais profusas cores,
Andei só, pilhando jardins, roubando flores!

Para quando, ao raiar do dia, em mil desvelos,
Ornar do fascínio delas, os teus cabelos;
E depois contemplar-te, absorto, fremente,
Fina flor entre as flores, demoradamente!

Onírico delírio, pleno de loucuras!...
Vagar, roubando pra ti, as flores mais puras,
Fazer que o teu perfume e o delas se confundam!

Expor ao vento as essências, finas e olentes,
Que só teu corpo e essas flores guardam latentes,
Pois se a mais leve aura sopra, o ar inundam!

21/03/2009

“Senectus”

“-Ó maldita “Senectus”, o meu rosto engelhas!...
Ouve, por um momento só, as minhas queixas;
Por que tu não deténs teu curso, não me deixas,
Não vês que a um deserto, de tal modo o assemelhas?

Não me venhas falar de desígnios divinos,
Tal desculpa não quero ouvir, não me convences;
Melhor, que bem depressa, noutra esquiva penses,
Ou nalgo que abrande teus modos tão ferinos.

Se má impressão meu rosto causa, é culpa tua,
Se dele riem, toda vez que eu saio à rua,
És a culpada, tu bem sabes, não me negues.

Se a mim tu impões cada vez mais, tanto rigor,
De minha amada, aqui te imploro, por favor:
Ao menos, pra bem longe, os teus cinzéis carregues!...”
“A mesma frase”

Vejo, nos teus olhos, um doce encantamento,
E sinto, igual fascínio, vês nos meus também;
Me faz acreditar que os nossos olhos têm,
Nas íris, espelhado, um mesmo sentimento.

Um desmedido amor que nunca se declara;
A timidez aquieta sempre a nossa voz;
Tantos desejos vive a despertar em nós,
Assim, tão brilhante, qual mística almenara.

Todo esse medo, um dia, sei, vai se extinguir,
E vamos juntos nossos corações abrir,
Deixando que a paixão contida neles, flua.

E, num momento indescritível de emoção,
De minha boca irás ouvir: -“Eu te amo!”, então,
E a mesma frase eu vou, feliz, ouvir da tua!
“O beija-flor e a rosa”

Todas as manhãs, ao romper da aurora,
Invade o meu jardim, um beija-flor;
E ao vê-lo, esvoaçante, multicor,
Emocionada, vibra toda a flora.

Quão lépida e galante essa avezinha,
No afã de o doce néctar vir sorver;
Um misto de euforia e de prazer
Nas flores, ao beijá-las, adivinha.

Mas sempre ocorre, de forma curiosa,
Que ele mais se demora numa rosa,
E assim todo o jardim já percebeu.

E ali, envolto em sonho singular,
Penso em nós dois, e fico a imaginar:
Que tu és a rosa... O beija-flor sou eu!...

13/03/2009

“Grito contido”

Há um grito preso na minha garganta,
Que eu tento a todo custo sufocar;
Às vezes ele insiste, e isso me espanta;
Vem a vontade louca de gritar.

Minh’alma, temerosa, treme inteira,
Como se a dor do mundo fosse a minha;
E sofre toda vez, desde a primeira,
Quando a fuga do grito se avizinha.

Há uma tristeza nela enclausurada,
Que foi chegando, assim, desavisada,
E desabou tal qual os temporais.

Eu vivo temendo que ela transborde,
E que ao gritar, a cidade inteira acorde...
Não mais adormeça ao som dos meus ais!