28/12/2010

VIRGENS MORTAS (Grafia original)

Quando uma virgem morre, uma estrella apparece,
Nova, no velho engaste azul do firmamento:
E a alma da que morreu de momento em momento,
Na luz da que nasceu palpita e resplandece.

Ó vós, que, no silencio e no recolhimento
Do campo, conversaes a sós quando anoitece,
Cuidado! - o que dizeis, como um rumor de prece,
Vae sussurrar no céo, levado pelo vento...

Namorados, que andaes com a bocca transbordando
De beijos, perturbando o campo sossegado
E o casto coração das flores inflammando,

- Piedade! ellas veem tudo entre as moitas escuras...
Piedade! esse impudor offende o olhar gelado
Das que viveram sós, das que morreram puras!

Olavo Bilac
(1865-1918)

23/11/2010

"LIBIDO"


Que sensação prazerosa, a libido,
Se apoderando de nossa alma inteira;
Como devassa, intrusa alcoviteira,
Falando de pecado ao nosso ouvido.

E, em toda vez, despudorada, acende,
Em nossos olhos, da lascívia, a chama...
E nos desnuda, e nos atira à cama
Que um súcubo zeloso logo estende.

Sob acordes de mágicos violinos,
Nos faz sonhar mil sonhos libertinos;
E o que era adormecido, então se arvora.

Quando se vai, ela nos deixa ansiosos;
Nos acompanha, em passos silenciosos,
Latente... pra irromper a qualquer hora!

19/06/2010

“Envelhecer”

Eu tinha apenas vinte anos e já temia
Chegar aos trinta... Parecia um pesadelo!
Frequentemente, nos espelhos eu me via,
A procurar por fios brancos no cabelo.

Cheguei aos trinta, com pesar, a contragosto;
Com ironia: "- Comemore!...", alguém me disse...
(Frente ao espelho, a procurar rugas no rosto,
Não falaria, se me visse, tal tolice!)

O tempo passa tão depressa!... eu lamentava...
E foi assim que, lamentando, eu fiz quarenta;
Aborrecido, nos espelhos, não me olhava.

Hoje me convenço, (o contrário até que provem!),
E digo rindo, sempre, quando a idade aumenta:
Envelhecer é bem melhor que morrer jovem!

11/06/2010

“Questão”

Sou fingidor exímio, (sou poeta!)...
E afirmo: Não existe um mais fingido!
Nem creio que jamais tenha existido
Quem finja assim, de forma tão discreta.

Além disso, pra espanto de vocês,
Confesso, muito tenho me cuidado:
Temendo ver meu vício revelado,
Chego a fingir que finjo alguma vez!

Agora mesmo, neste exato instante,
(E pode parecer-lhes bem chocante!...),
Eu posso estar fingindo, e nem notaram...

Sei que aborreço, e peço o meu perdão,
Mas, a mim mesmo, intriga esta questão:
Fingir!... Nasci sabendo, ou me ensinaram?...

08/06/2010

"O Frade e a Freira"
BENJAMIN SILVA (1897-1954)

Na atitude piedosa de quem reza
e como que num hábito embuçado,
pôs naquele recanto a natureza
a figura de um frade recurvado.

E sob um negro manto de tristeza
vê-se uma freira tímida a seu lado.
que vive ali rezando, com certeza,
uma oração de amor e de pecado...

Diz a lenda - uma lenda que espalharam -
que aqui, dentre os antigos habitantes,
houve um frade e uma freira que se amaram. . .

Mas que Deus os perdoou lá do infinito,
e eternizou o amor dos dois amantes
nessas duas montanhas de granito!

30/04/2010

(*) Quero externar aqui a minha gratidão pela prestimosa ajuda do Presidente da Academia Cachoeirense de Letras, Sr. Solimar Soares da Silva, que me enviou uma cópia do poema: "Itabira" (Não é um soneto, como eu pensava!...) de Benjamin Silva, na sua forma correta. Muitíssimo obrigado pela atenção!





"ITABIRA"

ITABIRA, ÍDOLO DA MINHA TERRA,
DE BELEZAS RARÍSSIMAS E ESTRANHAS,
ALTIVA A DOMINAR SERRA POR SERRA,
TODA A VASTA AMPLITUDE DAS MONTANHAS.

É UM ESGUIO PEDAÇO DE GRANITO,
DA SINGULAR CONFORMAÇÃO DE UM DEDO,
QUE PARECE INDICAR QUE NO INFINITO
EXISTE ALGUM MISTÉRIO, ALGUM SEGREDO...

PARA O NAUTA PERDIDO PELOS MARES,
RUMO INCERTO A SEGUIR QUANDO ANOITECE,
POR ENTRE A LUZ SOMBRIA DOS LUARES
ELA É O PRIMEIRO GUIA QUE APARECE.

DIZEM QUE A SUA VOZ ALGUÉM OUVIRA,
QUE ELA TEM ALMA E SABE QUE É FORMOSA,
E QUE PARECE UMA MULHER VAIDOSA
QUE NUM ESPELHO ESTÁTICA SE MIRA.

SÓ PORQUE EM NOITES LÍMPIDAS DE ESTIO,
QUANDO A BELEZA ASTRAL ESPANTA AS MÁGOAS,
ELA VEM, ORGULHOSA, VER NO RIO
SEU PRÓPRIO VULTO REFLETIR NAS ÁGUAS.

(DO LIVRO “CACHOEIRO”, DE BENJAMIN SILVA – 1996)