12/01/2012




“Mesmo que eu parta”

Ontem a Morte veio, sentou-se ao meu lado,
Num tosco banco de jardim da antiga praça;
E foi logo me dizendo, em tom debochado:
“ - Eu vim aqui pra te buscar, velha carcaça!...”

“ - Não vou... Não posso abandonar minhas poesias...”
Lhe respondi, entre assustado e bem nervoso.
De pronto retrucou, num tom então raivoso:
“ - Também não posso regressar de mãos vazias!”

Pedi-lhe: “ - Afasta do meu corpo esta gadanha...
Nem tenho pressa alguma de partir contigo;
Pouco me importa se não cumpres a façanha,

E se ao final, mesmo que eu parta, monstro hediondo,
Os muitos versos que restarem, no jazigo,
Garanto-lhe: minha alma há de seguir compondo!"

19/11/2011









“Cupido”



Cupido é mesmo um anjo sem juízo
Que, de arco em punho, por aí se esgueira,
Cravando flechas sem um prévio aviso,
Como se o amor fosse uma brincadeira.

Por uma delas, hoje, ao fim do dia,
Meu coração foi atingido em cheio...
É de causar inveja a pontaria;
Sinto-a cravada fundo, bem no meio!...

Cupido é sempre um anjo inconsequente...
Devia ser um pouco mais sensato;
Seria, ao certo, um pouco mais prudente,

Se o coração da nossa doce amada,
Tivesse também, no momento exato,
Por ele, outra flecha igual encravada!




31/10/2011

" Declaração de Amor "

Não te recordas mais? - Dois anos são passados
após aquela noite clara, e aquele mar
que espraiando distante, ouvir nos fez, calados,
os segredos de amor que estava a murmurar.

Nós dois - Quanta saudade!... Os braços enlaçados
fitávamos sonhando, o azul, cheio de luar,
- e os grãozinhos, de luz, no céu, pulverizados,
numa estrada que além... fugia ao nosso olhar...

- Que mais?... Tudo era belo - e no íntimo casando
a beleza do espaço à beleza da terra
não pude me conter, e os olhos teus fitando

disse: " Que mar feliz!... Que infinito esplendor!...
Que pode haver maior que o céu que tudo encerra
mais belo que esta noite?... E tu disseste:"
o amor!
"


( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. I - 1a edição 1965 )

07/10/2011

  "Leitora Amada" (Soneto nº 90)



Se tu, leitora amada, ainda existes,
Lê este meu poema inteiro agora.
É curto: sua leitura não demora.
Lerás a minha longa dor se insistes.

Que tu, leitora amada, me conquistes
Ao lê-los e chorar comigo... Chora!
Porém, se não quiseres, vai embora
E deixa-me só nestes versos tristes!

Leitora amada, além de ti, secreta,
Apenas tenho um grande amor maldito
Com a maldita dor que me acarreta.

Se amar tu não me puderes, não me irrito:
Se tu não amas este mau poeta,
Ama um poema que já tenha escrito.

                                                     "De Papel e Tinta" (Soneto nº 104)

Poeta: um homem de papel e tinta
Que se desfaz enfim no próprio pranto.
Tão frágil para amar pois ama tanto:
Não há um que não ame e que não sinta.

Poeta: um homem com mais de trinta
Que vive triste e só no próprio canto.
Porém, existirá somente enquanto
A dor do amor em si não for extinta.

Poeta: um homem que só tem ao redor
Lembranças da mulher que nunca tem
Por mais que a ame com amor maior.

Poeta: um homem que tem o mal e o bem
De conseguir amar mais e melhor
E nunca ser amado por ninguém.

                                                                                              Eden Santos Oliveira

26/08/2011

"O suicida"

Coitado, matou-se!... Disseram: -Por amor!...
Por uma tal Rosa... jamais correspondido.
Amor que virou tormento, virou dor,
Amor que, por ninguém, havia já sentido.

Tentou explicar tantas vezes tal paixão
Pra todos, pra si mesmo... faltou-lhe argumento!...
E viver sem Rosa, já não tinha razão;
Faltavam palavras... sobrava sentimento!...

Diante da incompreensão de uma cidade inteira,
Viver foi se tornando mais e mais penoso,
Que foi buscar na morte, a porta derradeira.

Houve quem dissesse que ele foi um covarde;
No entanto, os seus amigos, que foi corajoso...
Os inimigos disseram: -Morreu?... foi tarde!...