02/01/2016



Em Campina Grande, na Paraíba, em 1955, um grupo de boêmios fazia Serenata
numa madrugada do mês de junho, quando chegou a polícia e apreendeu o
violão. Decepcionado, o grupo recorreu aos serviços do advogado Ronaldo
Cunha Lima, então recentemente saído da faculdade e que também
apreciava uma boa seresta.

 Ele peticionou em Juízo, para que fosse liberado o violão. Esse petitório
ficou conhecido como "Habeas Pinho" e enfeita as paredes de escritórios de
muitos advogados e bares em praias do Nordeste. Mais tarde, Ronaldo Cunha
 Lima foi eleito deputado estadual, prefeito de Campina Grande (cassado
pelo
Golpe), senador da República, governador do Estado e deputado federal.

 Vejamos a famosa petição:

 


"HABEAS PINHO"
 





 Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca

O instrumento do crime que se arrola
neste processo de contravenção
não é faca, revólver nem pistola,
é simplesmente, doutor, um violão.

Um violão, doutor, que na verdade
Não matou nem feriu um cidadão.
Feriu, sim, a sensibilidade
de quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
instrumento de amor e de saudade.
O crime a ele nunca se mistura.
Inexiste entre eles afinidade.


O violão é próprio dos cantores,
dos menestréis de alma enternecida
que cantam as mágoas que povoam a vida
e sufocam suas próprias dores.

O violão é música e é canção,
é sentimento vida e alegria,
é pureza é néctar que extasia,
é adorno espiritual do coração.

Seu viver como o nosso é transitório,
mas seu destino, não, se perpetua.
Ele nasceu para cantar na rua
e não para ser arquivo de cartório.

Mande soltá-lo pelo amor da noite
que se sente vazia em suas horas,
p'ra que volte a sentir o terno açoite
de suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão, Dr. Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz,
cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, e afinal, será pecado,
será delito de tão vis horrores,
perambular na rua um desgraçado
derramando na rua as suas dores?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
na certeza do seu acolhimento.
Juntada desta aos autos nós pedimos
e pedimos também DEFERIMENTO.

O juiz Arthur Moura deu sua sentença no mesmo tom:

Para que eu não carregue
remorso no coração,
determino que se entregue
ao seu dono o violão.



Ronaldo Cunha Lima

01/01/2016










“Flerte”



Vens vindo... E é inevitável, sempre, o flerte:
Tens brilho próprio, és tão sublime, bela...
Arrebatado, ansioso para ver-te,
Quando passas, me posto na janela!

Na ânsia de que entendas, eu declaro,
Por ti, minha paixão imensurável...
A uma estrela, no instante, eu te comparo:
Estás sempre distante, inalcançável...

Mas, mesmo assim, a acompanhar teus passos,
Todos os dias, sempre ali, confiante,
 Eu fico a imaginar-me nos teus braços...

E mesmo em face de um amor incerto,
 Consola-me esse curto e terno instante,
 Em que contigo, da janela, eu flerto!