09/10/2016






"Pena" (Relógio de parede VIII)





Tenho relógios de parede em toda a casa,

Para lembrar-me quanta vida ainda me resta...

Nenhum deles adianta, nem tampouco atrasa,

E ao badalarem juntos, parece uma festa.



Andam dizendo por aí que eu sou demente;

Perguntam-se: “- Pra quê tanto relógio assim?...”

Não imaginam que eles fazem diariamente

Uma "algazarra", às horas certas, só pra mim!...



Como se fossem duma orquestra, os integrantes,

Todos se empenham num concerto sonoroso:

Pena é que dure só pouquíssimos instantes...



É sinfonia aos meus ouvidos, não me cansa,

Ouvir o som que deles parte, melodioso;

Pena é que não agrade tanto à vizinhança!...

02/09/2016





"Alto preço"




Componho versos, e por todos tenho apreço;

Tem todos eles, para mim, mesma valia...

Não saberia, lhes confesso, dar-lhes preço,

Pois vale mais do que ouro puro essa poesia.



E se algum dia for vendê-los, já declaro,

Será alta a soma que terão que dar em troco...

E pouco importa se dirão que é muito caro:

Por mais que ofertem, vou dizer que é muito pouco.



De onde é que vem, perguntam, tão valiosa escrita?...

(Nunca lhes disse de onde surge a inspiração!...):

Eu os escrevo, mas a minha alma é quem dita.


Dirão que eu vivo superestimando a obra,

Mas, do alto preço, nunca lhes disse a razão:

Eu ponho à venda, mas a minha alma é quem cobra!